Lembro-me de tudo, das brigas, dos joguinhos e rodriguinhos, dos esquemas, das traições. Agora tenho um novo amor, um novo amor. Nunca te amei, julgo eu, apesar de me teres dado a volta a cabeça. Gostava de te dizer na cara isto, só isto, tenho um novo amor. Acho que fiquei preso a ti porque, no fundo, a profusão de emoções fascinava-me. Não acredito que o teu amor fosse verdadeiro amor. Nunca nos amamos verdadeiramente, mexíamos e revolvíamos as emoções um do outro. Foi uma brincadeira que nos entregamos de corpo e alma, mas uma brincadeira. Gosto da pessoa que és, mas aquilo não foi amor.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
A Micose no Escroto
Uma mulher com pudor e bom senso critica-me por querer fruição. Sou demasiado leviano e descabido por procurar o prazer. Não concordo. Ter uma vida cinzenta não me torna melhor pessoa, muito pelo contrário. Mas a critica continua e exaspera: há fome, doenças, morte, sofrimento e guerras várias no mundo! Tudo bem, mas imaginemos a seguinte situação. Um tipo tem uma micose no escroto, pode perfeitamente ir a uma farmácia e comprar uma pomada para resolver o assunto. Primeira hipótese. Mas também pode ficar paralisado com a fome, as doenças, a morte, o sofrimento e as vária guerras que há no mundo, no entanto, a micose no escroto continua e as maleitas várias não deixam de assolar o mundo, mesmo que a dor não pare. Segunda hipótese. Peço perdão pela licenciosidade mas eu iria era comprar a pomada o mais depressa possível. Não quero ser mais um a sofrer.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Conversa de esplanada
Estou na esplanada do costume. Aguardo por um amigo. Tenho um livro na mão, Contos de John Cheever II. Chega o amigo:
AMIGO: Sempre a ler, meu caro.
EU: Tem de ser, tenho que dar utilidade a tua falta de pontualidade.
AMIGO: O que é isso?
EU: John Cheever.
AMIGO: Deixa-me ver.
Ele pega no livro, folheia-o e lê o posfácio de José Lima.
AMIGO: Andas a ler um roto?
EU: Roto?!
AMIGO: Sim, estão aqui a dizer que ele é roto.
AMIGO: Sempre a ler, meu caro.
EU: Tem de ser, tenho que dar utilidade a tua falta de pontualidade.
AMIGO: O que é isso?
EU: John Cheever.
AMIGO: Deixa-me ver.
Ele pega no livro, folheia-o e lê o posfácio de José Lima.
AMIGO: Andas a ler um roto?
EU: Roto?!
AMIGO: Sim, estão aqui a dizer que ele é roto.
José Lima fez uma brilhante tradução. O livro é puro deleite literário, mas os posfácios que salientam a polémica que envolveu o escritor, sobre a sua alegada homossexualidade, são deprimentes. Quando leio Cheever até posso sentir a tessitura das emoções contraditórias, mas nunca me apercebi sobre a sua orientação sexual, e se existirem vestígios desta são residuais. Fiquei fascinado pela obsessão do escritor pela Itália e pela família. As personagens femininas são tímidas e correctas mas revelam conhecimento sobre o sexo oposto, e apreço. As descrições são envolventes, e as emoções descritas e evocadas são reveladoras de uma mente arguta mas sensível, mas não devo isso a uma suposta ou efectiva homossexualidade. Enfim, é um bom livro, não deveria ter conotações pífias.
domingo, 16 de janeiro de 2011
Só pensas nisso
Se tivesse que escolher uma frase que deveria ser abolida da sintaxe da Língua Portuguesa esta seria: só pensas nisso. Não será muito difícil perceber o que é isso, mas o que é chocante, é que este isso tem implicações infindáveis, não é só isso que elas querem dizer, é isto e aquilo, e não sei o quê mais. Poderíamos pensar que podemos mudar, e no momento até saem promessas (vagas) da boca, mas não mudamos. Nunca mudamos. Ficamos os mesmos, ou pior. Seria interessante transformar este isso numa outra coisa, em algo que pudéssemos partilhar, viver, com normalidade e sem complexos. Mas há sempre o trabalho, responsabilidades, medos e receios vários, outras pessoas, outros amores, ou há sempre a desculpa de não encontrarmos um lugar aprazível. Um rol de azafamas várias que impedem a fruição. Eu nem sei o que fazer quando ouço esta frase, e não foi nem a primeira pessoa a me dizer, nem a primeira vez que a ouço. Estou convencido que não sou o único.
O perfeito candidato presidencial (1)
Estou a perder 12 e tal porcento numas acções quaisquer que adquiri há pouco menos do que um ano. Se Cavaco Silva é mau candidato por ter tido mais-valias na bolsa, eu, automaticamente, serei um bom candidato presidencial, exactamente por ter menos-valias. E se não sou um bom candidato, certamente seria um sucesso na Comissão de Honra de Manuel Alegre.
sábado, 15 de janeiro de 2011
O jardim onde te beijei
As pupilas ainda não se acostumaram à ténue luz. O crepúsculo parece eterno e iridescente. Vagueio pelas ruas, sôfrego. Desço uma avenida dedicada a Camões, continuo a deambular. Vejo árvores, é o Jardim Municipal. No anfiteatro ecoa o silêncio. Entro no jardim. Cinco passos. Volto atrás. Não quero estar naquele lugar. Ainda não sei porquê e sigo noutra direcção. A minha memória está impertinente e descabida. Lembro-me dos teus beijos! Lânguidos momentos. Paro. Olho em volta. Ausência. Um ermo avesso. Desço. Volto a subir. Parece que estou perdido, mas não, apenas desejo perder-me, desencontrar-me. Encontro um conhecido. Digo-lhe que estou com pressa. Só me apercebo que menti minutos depois. Encontro uma placa, dourada. Muito devagar leio o que lá está escrito. Os olhos traem-me por vezes. Reminiscência. Tenho oito anos. Estou sentado num banco a ler Sophia de Mello Breyner: Por-que os ou-tros se mas-ca-ram e tu não. «Não me sais da cabeça!». Despertar brusco. Eu não lia Sophia de Mello Breyner aos oito anos. Estou outra vez a mentir, desta vez a mim próprio. Encontro na placa o meu reflexo. «Porque te iludes?», pergunto eu. Continuo a caminhar, como se tivesse a fugir, mas mais parece que só ando as voltas, daquele jardim onde te beijei.
Eras tu que me ligavas quando estava escuro...Lembro-me, lembro-me. Eras tu. Na altura preferia outra pessoa a me ligar. Já não sei como ela se chama. Só me lembro, agora, que eras tu que me ligavas. Já não me ligas mais, não queres saber de mim, magoei-te, magoamos-nos mutuamente, nas intermitências do nosso amor. Já não nos falamos, mas eu lembro-me perfeitamente que me ligavas quando estava escuro.
Privacidade e Facebook
Paulo Pinto Mascarenhas manifesta uma certa estranheza sobre a publicação no DN das mensagens privadas trocadas entre Carlos Castro e Renato Seabra. Também senti o mesmo quando vi a notícia no telejornal. Como é possível este gesto de voyeurismo macabro numa sociedade civilizada? Especialmente tratando-se do denominado jornalismo de referência. A pergunta que se impõe é quem permitiu o acesso a conteúdos privados? Mesmo sabendo que toda a informação colocada no Facebook passa a ser propriedade da empresa liderada por Mark Zuckerberg, deveria haver um certo cuidado em disponibilizar este tipo de informação sensível. Podemos ficar muito entusiasmados com os amigos que fazemos nesta plataforma, da qual, confesso, sou um apreciador. Os últimos álbuns que ouvi foram todos de recomendações de amigos do Facebook, mas os perigos de usufruir deste tipo de benesses pode ser insidioso.
Post Esquizofrénico (1-A)
Caro Anti-António Ferreira
Belo e original nome que foste arranjar, será que tem a ver com Nelson Rodrigues? Será que a tua identidade não vai mais longe do que seres um mero antagonista de minha pessoa? Conheço pessoas como tu, verdadeiros sanguessugas, que não vão lado nenhum, que não têm ideias próprias ou valores próprios. Criticas-me por citar Barthes, e até tens alguma razão quanto as minhas limitações, mas pelo menos eu esforço-me, vou a luta, persigo os meus anseios, sou activo e produtivo. Não vejo essas qualidades em ti, Anti-António Ferreira, ou melhor, em vez do sufixo "anti" podemos fazer uma pequena alteração no teu epíteto, podemos chamar-te: António Ferrete. Muito mais apropriado dado que julgas lançar um labéu sobre a minha pessoa. Algo que nunca conseguirás; sou, claramente, muito superior a ti.
Melhores Cumprimentos
António Ferreira
Post Esquizofrénico (1)
Sobre a Sociedade frígida: Meu caro António Ferreira, com que então quer mudar a sociedade, apesar de ser modesto (pequenas mudanças incrementais), não deixa de ser um devaneio quer mudar o estado de coisas, e, sinceramente, um pouco banal. Todos querem dar o seu contributo, o seu cunho pessoal à sociedade. Que miséria de ilusão decadente! Depois mencionas Barthes como se o conhecesses. Bem sei que leste o Prazer do Texto, mas será que o percebeste, que o compreendeste, será que ficaste imbuído do espírito desse belo livro? Claro que não! Então porque esse preciosismo todo? Deixa-te de devaneios e ilusões que nada contribuem para o teu bem-estar.
Atenciosamente,
Teu alter-ego.
Sociedade Frígida
O que será que Barthes quereria dizer com sociedade frígida? A resposta talvez esteja relacionada com o facto de que mais do que nunca vivemos numa sociedade que é estimulada de todas as formas, mas que se mantém imóvel, estática e apática. E estes estímulos vêem de todos os lados, do governo e da oposição, dos cronistas e dos comentadores, dos escritores, dos activistas, do cidadão comum, existe uma profusão de indivíduos e de tribos das mais diversas espécies, cores e feitios que apelam à sociedade, mas esta mantêm-se irresoluta e frígida. Não acredito que possamos curar a frigidez de um dia para o outro, mas podemos dar uma carícia ou outra para ver se, pelo menos, pequenas evoluções incrementais aconteçam.
Subscrever:
Mensagens (Atom)